Educação

No meu pátio por volta do ano de 1965/66 começava a Beatlemania, que atravessava o oceano para nos encher a vida de música. Apercebi-me por essa altura que algo estava a acontecer, não era só a forma de vestir que alterava. A mentalidade dos mais novos estava a sofrer alterações profundas, percebia-se o conflito de gerações e o corte com o passado, a forma de educar estava a mudar. A Elsa, estudava no liceu Rainha Santa Isabel no Porto, foi a primeira pessoa que me apercebi a alterar o comportamento e a assumir uma postura diferente, talvez influenciada pelas amizades do liceu e por uma vaga de contestação mantida em segredo. Ela era apoiada pela mãe que era uma pessoa extremamente inteligente e com uma mentalidade vanguardista para a época, lembro-me de a ver frequentemente assumir todo o tipo de conversa com os homens e a opinião dela, era respeitada por todos. E isto influenciou o meu futuro na sua famosa "fase psicadélica", de forma marcante.
Nós por cá e com todo o nosso provincianismo ia-mos tendo o conhecimento destas coisas, através da rádio e de pessoas que vinham de férias dos países onde se encontravam imigrados, isto apesar de o sistema político controlar a informação, ocultando-a ou censurando-a.
No ano de 1968 entrei para a escola primária (Escola do Paço) em S. Gemil, Aguas Santas, esta com uma característica comum na época a todas as escolas, rapazes de um lado, raparigas do outro, divididos por um muro, relativamente baixo que provocava em todos grande curiosidade. Muitas vezes fui castigado por estar em cima deste a falar com determinada rapariga considerada pelos meus colegas como “a tua namorada”, imaginem, namorada! Nem me lembro do nome dela, tinha uma cara patusca, redonda, com olhos claros, um sorriso bonito. Não me lembro de mais nada.

Este muro representava a divisão dos sexos, e de uma forma mais profunda o separatismo que se queria implementar na sociedade. Opiniões há em que se procurava evitar uma gravidez prematura, mas na minha opinião o proibido é o mais desejado e o “Homem sempre encontrou formas de ultrapassar barreiras” não seria este pequeno “muro” a evitar isso. Era mesmo uma questão cultural a religião partilhava esta visão, aliás a religião e a política sempre foram aliadas.
Se calhar por isso, logo após o 25 de Abril aquando das primeiras eleições eu verifiquei que o muro tinha sido retirado. Os meus pais foram votar pela primeira vez e eu acompanhei-os neste acto cívico. As pessoas acorreram de forma maciça ao apelo feito pelo Governo de Salvação Nacional. O orgulho estava estampado na cara das pessoas, que se vestiram para este acto como de um casamento se tratasse. Foi uma autêntica romaria, esta a que assisti, que decorreu de forma bastante civilizada e calma.
Este muro tornasse num símbolo da Democracia, que deixa bem claro que o papel da mulher na sociedade iria tomar outros rumos, agora faltava derrubar o maior obstáculo de todos, mudar as mentalidades.
Verifico que a mentalidade tem mudado de forma acentuada a cada nova geração, mas ainda há muito a fazer.
Ainda hoje a violência doméstica é um factor que atravessa toda a sociedade e todos os estratos sociais. Agora até uma nova forma de violência, pois verifica-se que os filhos perderam o respeito pelos pais e os únicos culpados são os pais. Muito provavelmente esta situação ocorre porque não queremos repetir com os nossos filhos os mesmos erros dos nossos progenitores, e como somos uma geração de pais mais dedicados e compreensivos mas também os mais inseguros. Não nos apercebemos que lidamos com crianças extremamente inteligentes, ousadas e poderosas e na tentativa de sermos os pais que queríamos ter, passamos dos limites.
Fomos a ultima geração de filhos que obedecia aos pais e tornamo-nos nos primeiros a obedecer aos filhos. Os últimos que temíamos os pais e os primeiros com medo dos filhos. E o que é pior os últimos que respeitavam os pais, permitindo abusos dos filhos. A medida que se substitui o autoritarismo pela displicência, as relações familiares alteraram-se de forma radical. Dantes um bom pai era aquele a quem os filhos obedeciam e o tratavam com respeito, mas à medida que as barreiras entre nós se desvanecem hoje é feliz, aquele que consegue que os filhos o amem, ainda que pouco o respeitem. São os filhos agora que esperam que respeitem as suas ideias, os seus gostos e preferências a sua forma de agir e viver.
Os papéis inverteram-se, isto explica o esforço que os pais fazem para serem os seus melhores amigos e “darem tudo” aquilo que os filhos querem. Esta é uma situação que nos enfraquece e não os prepara para o futuro, pois na vida não basta querer para se obter é preciso lutar para conseguir.
Os pais têm que assumir a liderança da infância dos seus filhos ajudando-os. Dizer “não” quando achamos que os limites foram ultrapassados só os prepara para o futuro. Temos a obrigação de os guiar pois eles ainda nem sabem para onde vão, só assim evitaremos gerações frustradas, descontroladas, à deriva e sem destino. Sabemos que o autoritarismo não é a solução, mas o facilitismo também não, apenas incutir o respeito pelas nossas decisões poderá ser o suficiente para melhor os preparar para o futuro que não se prevê, nada fácil.
Conhecer os limites, dar amor ilimitado e um profundo respeito é a minha receita.

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